06 fevereiro 2007

Células-tronco: quando poderemos nos tratar com elas?

Toda vez que falo em células-tronco (CT), surge imediatamente a pergunta: "Quando essas pesquisas poderão se transformar em tratamento? Quanto tempo ainda teremos que esperar, cinco, dez, vinte anos?".
É uma pergunta muito difícil de responder. Por outro lado, recebo centenas de e-mails de pessoas com os mais diversos problemas, que querem ser cobaias e submeter-se a um tratamento com essas células -- aparentemente milagrosas. A maioria tem doenças graves, algumas progressivas e letais, o que justifica sua pressa e angústia. Mas outras querem tratar problemas como calvície ou impotência com CT. Será que acreditam que as CT vão ser a panacéia para todos os males? Que doenças poderão ser tratadas?
Em primeiro lugar, é fundamental que não se confunda tratamento com tentativa terapêutica. Pessoas com problemas cardíacos, derrame, diabetes, lesões medulares, esclerose múltipla e esclerose lateral amiotrófica já receberam injeções de CT. Em todas elas, retiraram-se CT da medula óssea da própria pessoa, para reinjetá-las em outro órgão (por exemplo, o coração).
Esse procedimento, que seria algo como um "auto-transplante", tem a vantagem de não ocasionar rejeição. Mas, por outro lado, não traria resultados em doenças genéticas (porque todas as células do indivíduo estão afetadas).
Além disso, o potencial de CT obtidas da medula óssea -- capazes de formar diferentes tecidos -- ainda não é conhecido. Só podemos falar hoje de tratamento com CT no caso de doenças hematológicas como leucemia ou alguns tipos de anemias. Nos outros casos, trata-se de pesquisas experimentais, onde os benefícios clínicos ainda precisam ser comprovados.
Se por um lado, a terapia celular com CT representará um salto gigantesco na medicina, nem todas as doenças poderão ser tratadas com essa abordagem. Um problema importante a ser contornado é o risco de formarem-se tumores. Quanto mais primitiva for a CT (como é o caso da célula-tronco embrionária), maior o seu potencial de formar diferentes tecidos; mas também de originar tumores, se injetada no organismo.
Qual "ordem" uma célula, ainda no embrião, recebe para se diferenciar em músculo, sangue, osso ou qualquer outro tecido? Quem comanda esse "show"? Entender esse processo vai ser muito importante para que possamos controlá-lo. Como eu trabalho com doenças neuromusculares, onde os pacientes afetados têm uma degeneração progressiva da musculatura, quero que as CT (uma vez injetadas no organismo) estejam comprometidas a formar somente músculo, e não outro tecido. Isso é fundamental, antes de falarmos em tratamento.
Sempre digo que as pesquisas são como a construção de uma casa, onde cada resultado corresponde a um tijolinho. Um dia chegaremos ao telhado -- e a casa poderá abrigar muita gente. Uma pesquisa publicada por um grupo de pesquisadores italianos, na revista "Nature" de 16 de novembro pode significar muitos tijolinhos. Esses cientistas injetaram um tipo especial de CT adultas (chamadas de mesoangioblastos) em cães afetados por uma forma de distrofia muscular progressiva (DMP), muito semelhante a DMP humana. (Nessas doenças ocorre uma degeneração progressiva da musculatura, e, nas formas mais graves, como na distrofia de Duchenne, meninos afetados perdem a capacidade de andar por volta dos 10 anos de idade.) Quatro dentre seis cães italianos tratados mostraram uma recuperação significante do músculo e uma melhora clínica. Para nós, que estamos fazendo pesquisas semelhantes na Universidade de São Paulo, esses resultados foram uma injeção de ânimo.
Estou convencida de que, no futuro, conseguiremos refazer não só tecidos em laboratório, mas também órgãos, abolindo para sempre a fila de transplantes. Porém, ainda temos que fazer muitas pesquisas (no laboratório e em modelos animais), antes de podermos falar em tratamento seguro, sem risco de vida para os pacientes. Como esse assunto gera uma enorme expectativa nas pessoas afetadas, é fundamental que esse tema seja debatido e esclarecido por cientistas à medida que as pesquisas avançam. O trabalho publicado pelo grupo italiano sugere que, talvez, possamos chegar ao telhado da casa mais rápido do que pensávamos. E abrigar muita gente.
Mayana Zatz
Mayana Zatz é geneticista, pró-reitora de pesquisa e diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo. Também trabalha há décadas com aconselhamento genético, ajudando famílias sob risco de desenvolver problemas de saúde de origem hereditária.
Fonte: O Globo

1 Comments:

At 12:49 AM, Anonymous Vania de Castro said...

Querido João Mário,

Continue nos brindando com essas matérias excelentes! Obrigada!
Beijos.

Com carinho,
Vania

 

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